12/07/2022

A diferença entre canibalismo e antropofagia ritual


por Cristóvão Feil, via facebook

(Antropofagia no Brasil, conforme o depoimento do antropólogo Darcy Ribeiro)

Satisfarei, agora, querida, a sua curiosidade. Vou contar a tal história da antropofagia.
Há dias, conversando com alguns rapazes sobre o gosto da carne de um enorme macaco que matei para eles, disse que talvez fosse o mesmo que carne de gente.
Um deles, então, me disse:
- Ora, quem come macaco, come Guajá, é uma coisa só. [Guajá ou Awá-Guajá são autóctones de tribos de outra etnia.]
Fui puxando e ele contando. Por fim, me disse que os velhos contam histórias de grandes comilanças de carne humana e dizem que é uma das mais gostosas, sabem um pouco à cutia. Mas esse é um assunto delicado que não se pode esgotar de uma só sentada.
Deixei morrer a conversa e só ontem voltamos a ela. Já agora, porém, falando com o capitão velho, homem de uns noventa anos, que viu muita coisa.
Quando todos, reunidos aqui na casa grande, à noite, bebíamos o mandiocá que o capitão velho esteve cozendo todo o dia no panelão que vimos queimar, eu fiz João levar a conversa, mansamente, para comilanças e daí para a começão de gente.
O velho contou, então, que há muito tempo, quando moravam atrás do Gurupi, seus avós costumavam caçar gente para comer. Faziam a guerra como até há pouco tempo e traziam dos encontros, como despojo, os corpos dos inimigos mortos, como trazem a caça.
Quando podiam, preferiam trazer o inimigo vivo, mantê-lo algum tempo na aldeia e matá-lo, ao fim, uma noite, para o banquete.
Acrescentou que muitos fugiam e era preciso estar sempre atento, sobretudo à noite, quando se aproximava a data da matança.
Havia um matador célebre, cujo nome ainda recordam: Makú, um guerreiro forte e corajoso. Ele é que matava, com um tacape especial, os prisioneiros condenados. Depois da matança, carneava-se a vítima. A primeira peça comida era o fígado, que o matador assava.
O corpo era dividido em postas, uma parte para o moquém, outra para cozinhar. Todos participavam com gosto do banquete.
Estávamos assim, altos em conversa tão interessante quando a velha loquaz, que de sua rede ouvia tudo, acrescentando pormenores, como a história de Makú, julgou bom tempo para encerrar a prosa.
Disse de lá:
- Já chega. Isso era antigamente. Nós comíamos mesmo. Agora é diferente, meu filho já foi a Belém, esteve lá por muitos meses e já voltou. Ninguém come mais ninguém.
Ainda tentei reavivar o assunto, fazendo João [João Carvalho, o intérprete de Darcy] contar que em minha aldeia, se comia gente do mesmo modo. Todos quiseram pormenores sobre esse nosso costume, mas a motivação não foi suficiente para espichar mais a conversa.
Lembra-me, agora, o Fernando Carneiro, com aquele seu desejo de que os nossos índios não fossem antropófagos, a me perguntar se eu tinha dados colhidos em campo para crer ou negar o que contam os velhos cronistas a esse respeito.
Tinha, então, apenas a certeza da compatibilidade etnológica dessa prática com a concepção do mundo que os índios têm. Agora tenho mais, aí estão, contados pelos índios mesmos, um por um, os principais elementos das cerimônias antropofágicas descritas pelos cronistas: a conservação do prisioneiro, seu sacrifício à noite com um tacape, a moqueação, o cozimento e o banquete.
Nos dois casos, também, uma comunidade inteira, numerosa, come um prisioneiro, o que não configura o canibalismo como alimento, mas a antropofagia ritual, que come herois numa cerimônia para incorporar sua valentia.
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Trecho da obra do antropólogo Darcy Ribeiro, “Diários Índios - Os Urubus-Kaapor”. Este livro é a edição dos diários de campo de duas expedições antropológicas de Darcy, ocorridas entre 1949 e 1951. Darcy tinha, então, cerca de 27 anos de idade.
Fotos: Darcy Ribeiro entre dois adultos Urubus-Kaapor, que habitam o sul do Maranhão, e capa do referido livro.

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